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Como é bom tocar em 5 !

Lembro-me da primeira vez que escutei uma música em compasso 5 por 8. Foi uma espécie de choque motivacional. Estava em Caracas, fazendo minha primeira tour internacional, em 1997, a convite do violonista e compositor Marco Pereira. Entre atividades relacionadas aos concertos, como entrevistas, sound-check e ensaios, fomos convidados pra uma festa-sarau na casa do cuatrista Asdrúbal “Cheo” Hurtado. Estavam lá: Cristóbal Soto, David Peña e Luis Julio Toro, integrantes do Ensamble Gurufio, grupo de música tradicional venezuelana, além de outros importantes músicos e pessoas queridas. Que recepção!! Quanta comida, quanta gente feliz e acolhedora e quanta paixão pela música.

Começamos a brincadeira tocando Choros. Fiquei impressionado pelo conhecimento que eles tinham sobre nossos compositores, sabiam muito sobre Radamés, Pixinguinha, Jacob, Nazareth. Tocamos Naquele tempo, Noites Cariocas, Vibrações, entre outras pérolas. Eu já podia ir embora feliz, mas daí veio a melhor parte. Quando começaram a tocar o repertório próprio, meu queixo caiu. Entre Valsas e Joropos, eles fizeram uma rápida apresentação dizendo que tocariam um “Merengue Venezolano”. Começaram e a magia fez a respiração de todos parar por alguns instantes. Eu sentia o boa onda da música, entendia a harmonia, achava a melodia linda, mas, o rítmo, o que era aquilo?

Tentava contar e não conseguia. Ao mesmo tempo que parecia uma música super difícil, rolava uma fluência impressionante, inclusive com o corpo balançando naquele rítmo raro; a música caia super bem aos ouvidos. Quando terminaram o Merengue, aplaudimos muito, parecia um gran finale.

Meus amigos me explicaram que o Merengue Venezolano é um gênero popular e escrito em 5 por 8. Naquele momento, abriu-se um mundo em minha mente. Fiquei feliz como uma criança em conhecer aquela novidade. Como pode uma música tão popular e fluente em 5 por 8 ?

Depois da festa, cheguei no hotel ainda inebriado com a experiência que tinha passado e, imagina o que fiz ? Tirei o bandolim da caixa e fui tentar tocar alguma coisinha em 5. Adentrei a madrugada mandando na trave, escorregando no metrônomo, mas começando a sentir a emoção de tocar esse compasso ímpar. Me lembro de tentar tocar O voo da mosca, de Jacob do Bandolim, em 5. Uau, que grande novidade! Fiquei verdadeiramente feliz e realizado naquela madrugada.

Praticamente não dormi.

No disco “Dois de Ouro - Hamilton de Holanda e Fernando César”, de 2000, gravei parte do arranjo d’O voo da mosca em 5, o que começou a abrir caminho pra tentar compor algo nessa onda.

Descobri que contar o tempo pode ajudar em um primeiro reconhecimento da música, mas, que na hora de tocar pra valer, é importante internalizar a levada/groove da música. E, acima de tudo, praticar muito pra ganhar intimidade física com o ritmo.

Eu pratiquei (e pratico, ainda) muito com o metrônomo. E estou sempre tentando encontrar uma melodia bonita dentro de um compasso como esses em 5 e 7. Já gravei algumas composições minhas como Estrela Negra, Caos e harmonia (parceria com Daniel Santiago), Capricho de Espanha e Capricho do Oriente (em 7) que tem esse tipo de compasso composto.

No meu último disco, Harmonize, tem uma composição em 5 por 4. É a música “Tá”, feita como um tema instrumental que ganhou letra do Thiago da Serrinha e foi gravada em 2014 no disco Bossa Negra com Diogo Nogueira.

Na questão da Harmonia, é uma música teoricamente simples, com poucos acordes. A melodia também não tem muita nota. Além disso, rola uma linha de baixo que, eu diria, é a parte mais importante da música, é a peça chave pra entender o encaixe do quebra-cabeça rítmico que é esse tema. Então, pra tocar com fluência a música “Tá”, se eu conseguir gravar na cabeça e no corpo a linha do baixo, já tenho meio caminho andado pra entender o todo. Vamos tentar? Bora estudar ?







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