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A perfeição existe. Será ?

Todos os dias eu procuro aprimorar e aperfeiçoar minha execução em determinadas músicas que são desafiadoras. Existem as músicas mais simples, que podem ser deliciosas e que me tomam pouco tempo para tirá-las e tocar 'perfeitamente'. Tem outras que já dão um trabalhinho maior e fico dias pra aprender e conseguir uma boa interpretação. E tem aquelas que me tomam mais do que dias, às vezes semanas e meses. E que vão me dar trabalho a vida inteira, serão sempre difíceis. Tento ter no meu repertório vários níveis de dificuldade. Se for tudo facinho, perde a graça. Se for tudo difícil, fica ruim encontrar sempre motivação porque música tem que estar ligada ao prazer e não ao sofrimento. Então é um misto de prazer e desafio.




Me lembro quando decidi aprender a música 'La Cathedral', do violonista paraguaio Agustin Barrios. Esta é uma peça feita originalmente para violão e que eu me atrevi a adaptá-la para o bandolim de 10 cordas. Era o ano de 2001 e eu tinha em mãos meu primeiro 10 cordas, feito pelo luthier Vergílio Lima - esse aí do vídeo. A música é em si menor, então mudei a afinação da corda mais grave de C pra B. E fui tirando de pedacinho em pedacinho. Tirava, lentamente, trechos pequenos e ia juntando conforme me sentia seguro. Então existe um primeiro trabalho de decorar a música. Daí, toco esses trechos lentamente. Vou juntando. Chega uma hora que percebo que existem trechos mais difíceis que outros. Fico em cima desses por mais tempo. Repito, toco mais lento, toco mais rápido, tento chegar no andamento sugerido pelo compositor ou por algum intérprete. Daí gravo. Ouço, gravo de novo. Faço isso até achar que o trecho ficou bom. Sigo juntando os pedaços. Encontro mais trechos difíceis. Vou repetindo. Quando percebo, já estou na segunda semana e ainda não decorei tudo - porque a vida segue, não existe só essa música no repertório e não existe só música na vida. A cada sentada pra estudar, finalizo com algo que me motive a continuar o dia seguinte. É ! Porque tem dia que é fogo, estudo, estudo e não vejo evolução. Isso é normal. Gravar me ajuda a perceber a evolução e o que preciso aperfeiçoar.

Depois de decorar a música todinha, passo pra fase seguinte, que é conseguir ter fôlego pra tocar a peça inteira com a boa energia e concentração, e chegar ao fim da composição com o nível de tensão que não prejudique a interpretação. Então, mesmo que erre, toco várias vezes a música inteira pra entender como os dedos, a mente e o coração funcionam durante a execução. E gravo. Durante uma música longa, várias coisas acontecem e a cabeça deve ter um bom nível de concentração do começo ao fim. Percebo que os trechos mais difíceis continuam difíceis kkkkkk. Então volto neles, repito mais lento. Às vezes tento tocar limpinho mais rápido que o andamento da música, não pra interpretá-la dessa maneira, mas pra ter o controle dos dedos. E volto a tocar a música inteira.

Às vezes tem um trechinho de 3 ou 4 notas que é muito difícil. Fico repetindo, ensinando para os dedos o movimento correto, tentando automátizá-lo. Tem trechos que são difíceis isoladamente. Estes mesmos trechos, combinados com o que vem antes e depois na música, ficam mais difíceis. E quando toco a música inteira, fica sempre a expectativa de quando vai chegar esse momento mais difícil. Ou seja, toco a primeira parte, que já é difícil, preocupado com o que vem pela frente. Pra que essa preocupação se 'dilua' e não vire uma tensão desnecessária, volto a tocar a música inteira e dou atenção maior pr'aquilo que é fundamental desde o começo da vida e do estudo : a respiração.

Acho que é isso que me faz ter auto-controle pra tocar uma música difícil e não errar. É conseguir, além do conhecimento das dificuldades, ter o controle da respiração, mas, não só ter o controle, aceitar que ela vai mudando de acordo com a emoção que a música gera. Além disso, fazer a entrada e saída de ar ajudar nos momentos mais difíceis e não relaxar demais nos mais fáceis.

Errar faz parte. A música nos dá a chance de flertar com essa procurada perfeição. Não é a perfeição utópica, de nunca existir erros, mas a perfeição da interpretação em que todas as notas estão no seu devido lugar e a interpretação nos eleve à emoção inesquecível.


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